_ Formação Portugal
26-06-16 0 Acessos

No passado dia 8 de junho de 2016, o jornal o público publicou, em primeira página, “Governo admite abrir doutoramentos nos institutos politécnicos”.

Este é, efetivamente, desde há muito anos, um desejo e uma luta de muitos Institutos Politécnicos: conhecer os critérios objetivos para o fazer de igual modo com as universidades, sem ser discriminado pelo nome e estatuto, como tem sido até aqui.
 
 
 
 
Mas “o essencial é invisível aos olhos” e temos de procurar ler para além da casca da árvore. Entretanto, perante a reivindicação de alguns Politécnicos em se quererem transformar em Universidades, o Sr. Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), Professor Manuel Heitor, “virou” político e está a oferecer alguns rebuçados aos Politécnicos que designa de “maiores”. “O Público” acrescenta, na manchete, que “os cursos terão natureza profissional”. Portanto, não parecem ser doutoramentos iguais aos das universidades. O adjetivo desclassifica. Tirando os EUA onde esta designação trouxe vários problemas, no mundo inteiro, um doutoramento é um doutoramento (PhD). Tenha muito ou pouco trabalho empírico (que raio é isso dum doutoramento profissional?), mais ou menos descoberta teórico-prática, o grau deve ser reconhecido em todo o mundo e não, apenas, nas empresas portuguesas.
Para alguns mais distraídos, esta notícia pode indiciar um bom primeiro passo. Para nós, trata-se de um rebuçado; um presente envenenado: doutoramentos profissionais? E os outros não o são? O doutoramento em medicina [aqueles que o têm, porque nem todos são doutores ao contrário do que pensa o senso comum] não é profissional, também? Então por que se pode obter, apenas, nas universidades?
“Com papas e bolos se enganam os tolos”. Esta resposta do MCTES reforça a desigualdade entre os dois subsistemas de ensino superior e surge para entreter a malta e como resposta aos factos evidentes: há politécnicos com mais condições científicas que algumas universidades. "Os doutoramentos dos politécnicos serão diferente daqueles que, até agora, têm sido atribuídos em exclusivo nas universidades, assumindo uma natureza profissional e maior ligação às empresas", continua o Público. Ora a moeda ["científica"] tem de ser única para não valer menos. E para ser reconhecida internacionalmente...
Segundo o mesmo jornal, “o entendimento do Governo é o de que os politécnicos correspondem à fileira profissional dentro do ensino superior e, portanto, devem poder ter cursos de doutoramento com uma componente profissional ou tecnológica. Desta forma seria possível um alargamento dos programas doutorais feitos em parceria com empresas, que têm um peso pouco significativo no sistema de ensino superior português." Trata-se, outrossim, de reforçar a discriminação (negativa) entre os dois subsistemas. Falta de coragem, Sr. Ministro...? A quem vai servir este doutoramento? Às empresas? Para ingressar na carreira do Politécnico como docente?
"Ao mesmo tempo que estuda a possibilidade de os politécnicos passarem a atribuir doutoramentos, o ministro Manuel Heitor recusa, por completo, a possibilidade de transformação de alguns politécnicos em universidades, uma solução que tem vindo a ser reivindicada pelos três maiores institutos (Porto, Lisboa e Coimbra)" (Público de 8 junho 2016). Ora aí está a continuidade, nesta matéria, do que havia feito Nuno Crato. Pois é, o governo não sabe o que fazer aos Politécnicos do Porto, Coimbra e Lisboa que se desvincularam do CCISP por não se identificarem com médias de entrada no ensino superior diferentes das da universidade. Pena que Leiria não se tenha desvinculado, também. Pena que o Jornal o Púbico só fale da reivindicação de passagem a Universidade por parte do IPPorto, IPCoimbra e IPLisboa. E Leiria? O IPLeiria já não quer?
 
"Porto, Lisboa, Coimbra ou Leiria estarão, neste momento, em condições de cumprir as obrigações para que um programa doutoral seja acreditado" (Público de 8 junho 2016). "Ou Leiria", senhor jornalista, senhor MCTES? Sobre os outros há certezas e sobre Leiria não? Leiria surge após o "ou" que é bem diferente da conjunção copulativa "e"... Tirem as vossas conclusões.
Qualquer doutoramento atribuído em Portugal, por um politécnico, será sempre desvalorizado completamente (internamente) e discriminado e ignorado internacionalmente. O título internacional é PhD. Doutoramento [ponto]. Qual profissional qual empresarial qual académico... PhD!!!!! Doutoramento!
Por favor, não desgastem nem estraguem as palavras, senhores governantes e apoiantes desta perspetiva altamente discriminatória.
 
"É MELHOR MERECER AS HONRAS SEM RECEBÊ-LAS DO QUE RECEBÊ-LAS SEM MERECÊ-LAS."
(Mark Twain)
 
Ricardo Vieira é professor coordenador principal
ESECS-IPLeira e CICS.NOVA.IPLeiria e escreve segundo o Acordo Ortográfico

In Jornal de Leiria


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